Categoria: Théo Drummond (Sonetos)

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Culpa (Théo Drummond)

Culpa
(Théo Drummond)

Será culpa, talvez, dos teus olhos azuis
o fato de te olharem como se o teu rosto
fosse de uma beleza tão cheia de luz,
radiosa como o dia, antes do sol posto.

Será culpa, talvez, do andar que reproduz
teu passo, que não vai onde te seja imposto;
o deixares de lado tudo o que seduz
e nem te permitires o menor desgosto.

Será culpa, talvez, da minha inconseqüência,
deixando que a ilusão de que possa mudar-te
para tornar-te igual a tantas que conheço,

que me faça ficar nesta insana insistência
de querer transformar-te qual se fosses parte
do que fui, do que sou, de tudo o que pareço.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 2006, pág. 26.

Diferença (Théo Drummond)

Diferença
(Théo Drummond)

Podaram a árvore da minha rua.
Percebi quanto estava diferente:
braços voltados para o céu e a lua,
nem tinha folhas, como antigamente.

E como a vida corre e continua
ela se via inútil porque a gente
nem se importava que estivesse nua,
e passava por ela, indiferente.

Podaram tantas vezes minha vida
e aqueles que o fizeram nem notaram
quanto a perda de um sonho é dolorida.

O que é certo é que a árvore, depois,
vai ter de volta os galhos que podaram
e essa é a diferença entre nós dois.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 2006, pág. 24.

Girassóis (Théo Drummond)

Girassóis
(Théo Drummond)

O azul do céu é triste, é azul-escuro,
azul estranho e limpo, sem que nada
turve o encanto dele, tão seguro,
livre de ventos, nuvens, passarada.

Sob ele, nem se nota o solo duro.
A terra inteira é toda atapetada
por girassóis enormes, de ouro puro,
que nasceram de loucas pinceladas.

A sensação que tenho, olhando aquela
mistura de dourado e azul, tão bela,
nessa tarde que aos poucos sai de cena,

é de que é enorme a paz que sinto agora,
olhando os girassóis e o azul lá fora
— e só por isso a vida vale a pena.

Em 100 Sonetos/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 2006, pág. 91.

A águia (Théo Drummond)

A águia
(Théo Drummond)

A Clau Assi

A águia sabe o momento de parar:
arranca as penas gastas e, paciente,
aguarda que outras cresçam, no lugar,
para enfrentar os ares, novamente.

Não há nada mais belo do que o voar
da águia, de asas abertas, imponente.
Lá das alturas fica a procurar
o que precisa, pra que se alimente.

Trocar as velhas penas é entender
que a gente pode, mesmo com saudade,
ser feliz mesmo quando envelhecer.

E ao voltar a voar, sempre à vontade,
de alma nova, voltar a perceber,
que quem faz nosso vôo é a nossa idade.

Em Porta do Coração/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 2008, pág. 46.

Diferença (Théo Drummond)

Diferença
(Théo Drummond)

Podaram a árvore da minha rua.
Percebi quanto estava diferente:
braços voltados para o céu e a lua,
nem tinha folhas, como antigamente.

E como a vida corre e continua
ela se via inútil porque a gente
nem se importava que estivesse nua,
e passava por ela, indiferente.

Podaram tantas vezes minha vida
e aqueles que o fizeram nem notaram
quanto a perda de um sonho é dolorida.

O que é certo é que a árvore, depois,
vai ter de volta os galhos que podaram
e essa é a diferença entre nós dois.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 24.

As pegadas de Deus (Théo Drummond)

As pegadas de Deus
(Théo Drummond)

Caminho pela areia em plena madrugada.
É bom sentir a calma que há nesta lagoa.
Nenhuma brisa passa. A vida está parada.
Naquela imensidão não vejo outra pessoa.

Há tanto tempo eu tinha a alma amargurada.
Agora, de repente, o amargor esboroa
e sinto a sensação, durante a caminhada,
que tem alguém comigo andando, assim, à-toa…

Vou e penso na vida, e a vida faz sentido.
As coisas que passei já são coisas passadas
e tenho de viver, de aceitar o perdido.

Diante de tanta paz banhada em lua cheia
olho por onde piso e percebo, marcadas,
as pegadas de Deus junto às minhas, na areia…

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 23.

Rosa Vermelha (Théo Drummond)

Rosa Vermelha
(Théo Drummond)

Quando a rosa vermelha se acabou
e eu me lembrei quão bela tinha sido,
percebi que meu peito começou
a sentir que algo em mim tinha morrido.

A rosa cor de sangue só reinou
um curto tempo para ser vivido.
Devia durar mais do que durou,
ou seria melhor nem ter nascido.

Mas enquanto existiu, como rainha,
as pétalas abertas, rubras, cheias,
mereceu todo o amor porque era minha.

Se duvidares do que digo, creias:
herdei da rosa o que mais belo tinha;
a cor vermelho-sangue em minhas veias.

Em 100 Sonetos/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 22.

Caminhada (Théo Drummond)

Caminhada
(Théo Drummond)

Este mar tão escuro, estas nuvens pesadas,
as ondas encobrindo esta areia vazia,
o cansaço trazido por minhas passadas,
meu olhar, que ao olhar, todo se entristecia.

Pessoas solitárias andam nas calçadas.
A música do quiosque — quem ali que a ouvia?
Penso em outras manhãs, nas longas caminhadas
que, nos tempos passados, tranqüilo fazia.

Acho que o que acontece é o que sempre esperei:
a passagem das horas nunca nos perdoa
e a longa caminhada já nem faz sentido.

Então, meu coração bateu forte e eu parei.
E mais me convenci do quanto o tempo voa,
pois tive a sensação de que havia morrido.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 21.

Indagação (Théo Drummond)

Indagação
(Théo Drummond)

Quando dizes as coisas que me dizes,
naquele tom de raiva disfarçada,
ignorando o tempo em que felizes,
palavra alguma seca era trocada;

quando me agrides como se os deslizes
nada mais fossem que a propositada
maneira de buscar fazer das crises
dores mais fundas do que punhalada;

quando me encaras cheia de arrogância,
como se tudo fosse culpa minha
para tornar maior nossa distância,

eu me pergunto, com profundo espanto,
porque morreu o amor que a gente tinha
e a gente se enganou que amava tanto.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 102.

Primavera (Théo Drummond)

Primavera
(Théo Drummond)

Folhas que amarelecem nos avisam
que os ventos outonais vão derrubá-las,
despindo as ramas quando mais precisam
de muitas folhas, para agasalhá-las.

Os que conhecem árvores divisam
quando o outono, ao chegar, quer afrontá-las,
jogando ao chão, onde as pessoas pisam,
todas as folhas, para desnudá-las.

Árvores nuas já não têm pudores,
ficam no sol, na chuva, em longa espera,
sem poder mudar nada, e sem escolhas.

Sofrem, mas ficam disfarçando as dores,
até que chegue a nova primavera,
que irá vesti-las, outra vez, de folhas.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 20.

Chão (Théo Drummond)

Chão
(Théo Drummond)

Havia um chão que nada que plantava
transformava-se em flor, como eu queria.
Da semente plantada e que regava,
a flor sonhada nunca que surgia.

Na pequena distância que existia
entre este chão e um outro em que lançava
qualquer semente, em breve ela seria
uma flor, mas não era a que esperava.

A vida é como um chão, tem seus pedaços.
Em uns, uma semente, se deixada,
sendo regada ou não, sempre aparece.

Mas há trechos no chão — grandes espaços
— que a flor que se plantou, e era aguardada,
por ser terra ruim, nem brota ou cresce.

Em 100 Sonetos/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 19.

Lâmpada (Théo Drummond)

Lâmpada
(Théo Drummond)

A vida é como a lâmpada; ligada,
espalha a luz que então tudo ilumina.
Mas se apagada, cumpre uma outra sina:
sente-se inútil, não clareia nada.

A compreensão nos chega repentina:
a lâmpada queimada, ao ser ligada,
nada ilumina e tem que ser trocada
pois, na verdade, já cumpriu sua sina.

A lâmpada, porém, que ainda se acende
deixa que se perceba as coisas boas
– a que queimou, já nada mais pretende.

O tempo é que é culpado e tudo estraga:
lâmpadas são como a vida das pessoas,
enquanto uma se acende outra se apaga.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 18.

Teu Corpo (Théo Drummond)

Teu Corpo
(Théo Drummond)

O teu corpo é um convite a uma aventura
a qual me lanço em busca de um caminho.
E ao procurá-lo, eu uso da ternura
que me trará, em troca, teu carinho.

E assim, cada momento de procura
do que ocultas num leito em desalinho,
torna o instante vivido uma loucura,
já que em teu corpo há tudo o que adivinho.

E quando foges do que quero dar-te,
fingindo não querer envolvimentos,
num prazer que será de parte a parte,

vou te prendendo com meus movimentos,
e no teu corpo — que é uma obra de arte
— busco o caminho dos descobrimentos.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 17.

O Poeta (Théo Drummond)

O Poeta
(Théo Drummond)

Se o poeta fosse gente
do tipo que nada afeta,
não seria diferente,
mas não seria um poeta.

O poeta é persistente,
tem sua vida secreta:
sonha um sonho permanente,
sua alma é sempre inquieta.

Triste ou alegre, o seu verso
atinge, profundamente,
os corações, como seta.

Ele é filho do universo,
é diferente da gente,
e, por isso, é que é poeta.

Em 100 Sonetos/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 16.

A Hera (Théo Drummond)

A Hera
(Théo Drummond)

Da semente plantada nasce a hera
que há de cobrir aquele branco muro.
E por saber-se disso é que se espera
que o muro fique verde, no futuro.

O tempo passa e a gente persevera
ao regar todo dia o chão tão duro.
E assim, vai transformando uma quimera
na realidade deste verde puro.

Quando, no entanto, o muro todo veste
o verde, e o branco então fica escondido
e em breve nem lembrança dele reste,

a verdade é que o muro permanece,
como se nada houvesse acontecido,
como se a hera, ali, nem estivesse.

Em 100 Sonetos/Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 15.

Pedido (Théo Drummond)

Pedido
(Théo Drummond)

Deixa o calor do corpo me aquecer;
tua boca dizer que ainda me amas.
Deixa o abraço dos braços te envolver.
Acende em mim, por ti, todas as chamas.

Deixa que em teu olhar eu possa ver
as minhas alegrias e os meus dramas.
Deixa aprender contigo o que é viver;
e possa eu te dar tudo o que reclamas.

Deixa que o teu sorriso me enterneça,
ao perceberes quanto te preciso,
deixa que por destino te mereça.

Deixa que com loucura eu me socorra
de tudo quanto em ti me realizo;
deixa que eu te pertença até que eu morra!

Em 100 Sonetos/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 14.

Raiva (Théo Drummond)

Raiva
(Théo Drummond)

Olho a cama sem ti e permaneço
acordado ao sentir que está vazia.
É um castigo que sei que não mereço.
É uma dor que dói muito e eu não queria.

A tua ausência eu bem que preferia
ter partido na frente, e o que padeço
porque foste primeiro, é uma agonia,
uma tortura que jamais esqueço.

Não sei quantas serão as mal-dormidas
noites que vou passar sem sentir sono,
relembrando o que foram nossas vidas.

Passo a mão no teu lado de deitar.
A sensação que tenho é de abandono,
raiva de não ter ido em teu lugar.

Em 100 Sonetos/ Théo Drummond, Caravansarai Editora Ltda.,
Rio de Janeiro (RJ), 2006, pág. 13.

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