Categoria: Sophia de M.B. Andresen (Português-PT)

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Apolo Musageta (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Apolo Musageta
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Eras o primeiro dia inteiro e puro
banhando os horizontes de louvor.

Eras o espírito a falar em cada linha
eras a madrugada em flor
entre a brisa marinha.
Eras uma vela bebendo o vento dos espaços
eras o gesto luminoso de dois braços
abertos sem limite.
Eras a pureza e a força do mar
eras o conhecimento pelo amor.

Sonho e presença
de uma vida florindo
possuída e suspensa.

Eras a medida suprema, o cânon eterno
erguido puro, perfeito e harmonioso
no coração da vida e para além da vida
no coração dos ritmos secretos.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 18.

Evohé Bakkhos (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Evohé Bakkhos
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Evohé deus que nos deste
a vida e o vinho
e nele os homens encontraram
o sabor do sol e da resina
e uma consciência múltipla e divina.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 17.

O jardim e a noite (Sophia de Mello Breyner Andresen)

O jardim e a noite
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Atravessei o jardim solitário e sem lua,
correndo ao vento pelos caminhos fora,
para tentar como outrora
unir a minha alma à tua,
ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiro cercados de buxo,
sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
e os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
que devia acordar do seu inquieto sono
a terra negra dos canteiros
e os meus sonhos sepultados
vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
calou-se a terra,
e sob o peso dos frutos ressequidos
do presente,
calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,
enquanto subia e caía a água do repuxo,
murmurei as palavras em que outrora
para mim sempre existia
o gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,
para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
de fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem
a noite solitária e pura
continuou distante e inatingível
sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
a minha ânsia carregada de impossível,
contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
e embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
mas nada pôde acordar dos seus escombros
o meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente
e à sua volta todo o jardim cantou
e a água do tanque tremendo
se maravilhou
em círculos, longamente.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 15/16.

Meio-dia (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Meio-dia
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
e o mar imenso solitário e antigo
parece bater palmas.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 14.

Mar (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Mar
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

I

De todos os cantos do mundo
amo com um amor mais forte e mais profundo
aquela praia extasiada e nua,
onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II

Cheiro a terra as árvores e o vento
que a Primavera enche de perfumes
mas neles só quero e só procuro
a selvagem exalação das ondas
subindo para os astros como um grito puro.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 13.

Luar (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Luar
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

O luar enche a terra de miragens
e as coisas têm hoje uma alma virgem,
o vento acordou entre as folhagens
uma vida secreta e fugitiva,
feita de sombra e luz, terror e calma,
que é o perfeito acorde da minha alma.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 11.

Noite (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Noite
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Mais uma vez encontro a tua face,
ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
sobre os caminhos de areia,

rios de palidez em que escorre
sobre os campos a lua cheia,

ansioso subir de cada voz,
que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
de mil gestos entre a folhagem,

tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
reconheço e adoro a tua face,
tão exaltadamente desejada,
tão exaltadamente encontrada,
que a vida há-de passar, sem que ela passe,
do fundo dos meus olhos onde está gravada.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 10.

Apesar das ruínas e da morte (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Apesar das ruínas e da morte
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Apesar das ruínas e da morte,
onde sempre acabou cada ilusão,
a força dos meus sonhos é tão forte,
que de tudo renasce a exaltação
e nunca as minhas mãos ficam vazias.

Em Poesia/ Sophia de Mello Breyner Andresen, 5ª edição,
Editorial Caminho S.A., Lisboa, Portugal, 2005, pág. 9.

Há jardins invadidos de luar (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Há jardins invadidos de luar
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Há jardins invadidos de luar
que vibram no silêncio como liras.
Segura o teu amor entre os teus dedos
neste jardim de Abril em que respiras.

A vida não virá — as tuas mãos
não podem colher noutras a doçura
das flores baloiçando ao vento leve.

Fosse o teu corpo feito de luar,
fosses tu o jardim cheio de lagos,
as árvores em flor, a profusão
da sua sombra negra nos caminhos.

Em Dia do Mar/ Sophia de Mello Breyner Andresen,
Editorial Caminho S.A., Lisboa (Portugal), 5ª edição, 2005, pág. 66.

Jardim verde e em flor, jardim de buxo (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Jardim verde e em flor, jardim de buxo
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Jardim verde e em flor, jardim de buxo
onde o poente interminável arde
enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
voz onde o silêncio se embala,
canta, murmura e fala
dos paraísos desejados,
cuja lembrança enche de bailados
a clara solidão das tuas ruas.

Em Dia do Mar/ Sophia de Mello Breyner Andresen,
Editorial Caminho S.A., Lisboa (Portugal), 5ª edição, 2005, pág. 20.

As rosas (Sophia de Mello Breyner Andresen)

As rosas
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
é como se prendesse entre os meus dentes
todo o luar das noites transparentes,
todo o fulgor das tardes luminosas,
o vento bailador das Primaveras,
a doçura amarga dos poentes,
e a exaltação de todas as esperas.

Em Dia do Mar/ Sophia de Mello Breyner Andresen,
Editorial Caminho S.A., Lisboa (PT), 5ª edição, 2005, pág. 17.

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