Categoria: Rainer Maria Rilke (Praga, República Checa) As Rosas

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As rosas XXIV (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XXIV
(Rainer Maria Rilke)

Rosa, foi preciso te deixar lá fora
estranha querida?
Que faz uma rosa aqui onde a sorte
se esgota sobre a nossa lida?

Sem retorno. Tu ficas
e compartilhas
conosco, perdidamente, esta vida, esta vida
a que não pertences.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 67.

As rosas XXIII (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XXIII
(Rainer Maria Rilke)

Chegaste tarde, rosa, e recuaste
sob as luzes siderais das noites amargas:
tu vês, rosa, que tuas irmãs estivais
se comprazem em delícias raras?

Por dias e dias vejo que hesitas
na tua cinta apertada tão forte.
Rosa que, ao nascer, ao revés imitas
os lentos modos da morte.

Teu inumerável estado te faz conhecer
nessa mistura onde as coisas se dissolvem
esse acordo inefável entre o nada e o ser
que todos ignoram?

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 65.

As rosas XXII (Rainer Maria Rilke)

 

As rosas
XXII
(Rainer Maria Rilke)

Você de novo, você brota
da terra dos mortos,
rosa, você que porta
para um dia todo em ouro

essa felicidade convicta.
E eles deixam, esses
cujo crânio vazio
nunca soube tanto?

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 63.

As rosas XXI (Rainer Maria Rilke)

 

As rosas
XXI
(Rainer Maria Rilke)

Tanta volta que tens que dar
girar para fazer-se rosa redonda:
não ficas tonta nesses momentos?
Mas quando teu movimento te inunda

tu te esqueces em teu botão.
É um mundo que gira em ronda
para que seu calmo centro ouse
o redondo repouso da rosa redonda.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 61.

 

As rosas XX (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XX
(Rainer Maria Rilke)

Conta-me como pode, rosa,
que a este espaço em prosa
tua lenta essência imponha,
contida em ti mesma,
todos esses transportes aéreos?

Quantas vezes esse ar
tenta mostrar que o penetram
ou se lamenta,
amuado.
Enquanto que à sua volta,
rosa, ele se ostenta.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 59.

As rosas XIX (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XIX
(Rainer Maria Rilke)

Fazer-se em exemplo é a tua proposta?
É possível preencher-se como as rosas,
multiplicando a própria matéria
sutil que ali foi deixada ociosa?

Pois parece que não dá trabalho
ser uma rosa.
É olhando pela janela
que Deus arruma a casa.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 57.

As rosas XVIII (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XVIII
(Rainer Maria Rilke)

Em tudo o que nos comove tu estás presente.
Mas aquilo que te ocorre nós não sabemos.
Só sendo cem borboletas para podermos
ler todas as tuas páginas.

Algumas de vocês são como dicionários;
aqueles que as colhem
querem encadernar todas as folhas.
Já eu prefiro as rosas epistolares.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 55.

 

 

As rosas XVII (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XVII
(Rainer Maria Rilke)

És tu que em ti preparas
mais que ti mesma, tua última essência.
O que sai de ti, essa emoção rara
é a tua dança.

Cada pétala se move
no vento
em passos perfumados
invisíveis.

Oh música dos olhos,
envolvida em tal movimento,
tu te fazes nesse meio
intangível.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 53.

As rosas XVI (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XVI
(Rainer Maria Rilke)

Não falemos de ti. Tu és inefável
em tua natureza.
Outras flores ornam a mesa
que tu transfiguras.

Colocam-te num simples vaso –
eis que tudo muda nesse arranjo:
é a mesma frase talvez
mas cantada por um anjo.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 51.

As rosas XV (Rainer Maria Rilke)

 

As rosas
XV
(Rainer Maria Rilke)

Sozinha, oh abundante flor,
tu crias teu próprio meio;
tu te miras num espelho
de odor.

Teu perfume é outra pétala que contorna
teu cálice inumerável.
Eu te pego, tu te mostras,
atriz prodigiosa.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 49.

As rosas XIV (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XIV
(Rainer Maria Rilke)

Verão: ser por alguns dias
o contemporâneo das rosas;
respirar o que paira em volta
de suas almas abertas.

Fazer de cada uma que morre
uma confidente,
e sobreviver a essa irmã
em outras rosas ausente.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil 1996, pág. 47.

As rosas XIII (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XIII
(Rainer Maria Rilke)

Preferes, rosa, ser a ardente companhia
de nossas paixões presentes?
É a lembrança que te toma
quando reavemos uma alegria?

Tantas vezes já te vi, feliz e seca,
– tuas pétalas são lençóis –
num cofrinho perfumado, junto a uma mecha
ou num livro amado que relemos sós.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 45.

As rosas XII (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XII
(Rainer Maria Rilke)

Contra quem, rosa,
a senhora adotou
esses espinhos?
Sua alegria tão delicada
forçou-a, quem sabe,
a se tornar essa coisa
armada?

Mas de quem a protege
essa arma exagerada?
Já de tantos inimigos
a tenho livrado
que não temiam nada.
Ao contrário, de verão a outono,
a senhora é que fere
os afagos que recebe.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 43.

 

 

 

As rosas XI (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XI
(Rainer Maria Rilke)

Sinto tanto e tão fundo teu
ser, rosa completa,
que ao te receber te confundo
com meu próprio ser em festa.

Eu te respiro como se tu fosses,
rosa, toda a vida
e me sinto o amigo perfeito
de uma tal amiga.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 41.

As rosas X (Rainer Maria Rilke)

As rosas
X
(Rainer Maria Rilke)

Amiga das horas em que ninguém resta
quando tudo é recusado ao coração amargo;
consoladora cuja presença atesta
tantas carícias que nos têm confortado.

Se renunciamos à vida, se renegamos
o que foi e o que pode acontecer,
jamais pensaremos o bastante nessa fiel amiga
essa fada constante sempre a nosso lado.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 39.

As rosas XIX (Rainer Maria Rilke)

As rosas
XIX
(Rainer Maria Rilke)

Rosa, toda ardente e clara todavia,
que deveria se chamar relicário
de Santa-Rosa…, rosa que irradia
esse cheiro perturbador de santa nua.

Rosa nunca mais tentada, desconcertante
por sua paz interna; derradeira amante
tão longe de Eva, de seu primeiro alerta –
rosa que contém a queda infinitamente.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 37.

As rosas VIII (Rainer Maria Rilke)

 

As rosas
VIII
(Rainer Maria Rilke)

De teu sonho tão cheio,
flor numerosa em seu meio,
molhada como quem chora,
tu te inclinas sobre a aurora.

Tuas doces forças que dormem,
em um incerto desejo,
produzem essas formas suaves
entre faces e seios.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 35.

As rosas VII (Rainer Maria Rilke)

As rosas
VII
(Rainer Maria Rilke)

Rosa fresca clara te apóias
sobre meu olho fechado –
fazem-se mil pálpebras
superpostas

contra a minha, quente.
Mil sonos enquanto finjo
e por aí vago a esmo
no oloroso labirinto.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 33.

As rosas VI (Rainer Maria Rilke)

As rosas
VI
(Rainer Maria Rilke)

Uma rosa só são todas as rosas
e esta aqui: ágil vocábulo
o único, o perfeito
emoldurado pelo texto das coisas.

Como dizer sem ela
o que foram nossas esperanças
e em meio à constante errância
os momentos ternos e breves.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 31.

As rosas V (Rainer Maria Rilke)

As rosas
V
(Rainer Maria Rilke)

Abandono cercado de abandono,
delícia tocando delícias…
É o teu meio que sem cessar
se acaricia, dir-se-ia;

se acaricia em si mesmo,
de seu próprio reflexo iluminado.
Assim inventas o tema
do Narciso realizado.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 29.

As rosas IV (Rainer Maria Rilke)

As rosas
IV
(Rainer Maria Rilke)

Fomos porém nós a te propor
que enchesses teu cálice.
E, abundante, deliciada
pelo artifício, não hesitaste.

Rica que és, podes ser cem vezes ti mesma
em uma só flor;
esse é o estado do amor
e tu não querias outra coisa.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 27.

As rosas III (Rainer Maria Rilke)

As rosas
III
(Rainer Maria Rilke)

Rosa, tu, oh coisa por excelência completa
infinitamente contida em si
e que se estende infinitamente, oh cabeça
de um corpo que por demasiada doçura se ausenta,

nada se iguala a ti, essência suprema
desse frágil lugar;
desse espaço de amor onde teu perfume
envolve-nos mal se entra.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro, (RJ) Brasil, 1996, pág. 25.

As rosas II (Rainer Maria Rilke)

As rosas
II
(Rainer Maria Rilke)

Vejo-te, rosa, livro à metade
aberto que contém tantas páginas
de detalhada felicidade
que jamais serão lidas. Livro-mago,

que se abre ao vento e cuja leitura
se pode fazer de olhos fechados…,
de lá as borboletas voam confusas
pelas mesmas idéias lhes terem inspirado.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke; tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 23.

As rosas I (Rainer Maria Rilke)

As rosas
I
(Rainer Maria Rilke)

Se teu frescor por vez tanto surpreende,
radiosa rosa,
é que em ti mesma, por entre,
pétala contra pétala, tu te repousas.

Todo desperto, cujo meio
dorme, enquanto inúmeras se tocam
as carícias quietas desse coração cheio
que terminam na extrema boca.

Em As rosas/ Rainer Maria Rilke, tradução e prefácio Janice Caiafa,
Livraria Sette Letras Ltda., Rio de Janeiro (RJ) Brasil, 1996, pág. 21.

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