Categoria: Olga Savary

Mostrando postagens com marcador Olga Savary.
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As Subterrâneas (Olga Savary)

As Subterrâneas
(Olga Savary)

Mais belas que estas flores
— mas muito mais — que florescem
atormentando mil verdes,
mais belas que estas vermelhas
incendiando o jardim,
onde mãos imprecisas
castigam querendo colher,
são as nunca nascidas,
são essas flores ocultas
em subterrâneo desejo.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 49.

Serenata Aérea para Sasuku Asakura (Olga Savary)

Serenata Aérea para Sasuku Asakura
(Olga Savary)

A despedida é, em si mesma, morte
— e aqui estou eu só para a verificação.

Ali ainda agora era o sortilégio
oriental — menos palavra que gesto —
em despedida conclusa.

(Então decido
que com o afastamento
esta história sem astúcia tenha fim.)

Esta é a tua morte
que carrego
atravessando cidades aéreas
e entre nós deixo ficar
inevitável rebanho de nuvens.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 42.

Pedido (Olga Savary)

Pedido
(Olga Savary)

A Manuel Bandeira

Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 48.

Amanhã (Olga Savary)

Amanhã
(Olga Savary)

Se devoras teus sonhos
quando se ensaiam apenas
e secamente represas
essa linguagem de flores
e teu desejo de asas
que restam subterrâneas,
quem serás tu, depois
do Grande Sono, amanhã?

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 44.

A Renda (Olga Savary)

A Renda
(Olga Savary)

A Tadashi Kaminagai

Cercados de suas nuvens,
árvores, águas terrosas,
na sala iluminada menos de luz
que da beleza criada,
seus olhos caíram sobre a renda
em fuga para meus ombros
no vestido branco assistindo à despedida:
— “Renda bonita em cima de mesa.”
Isso acordou o vago deus obscuro
emergindo em forma de pergunta:
— “Só em cima de mesa?”
— Ele sorriu.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 43.

Água Água (Olga Savary)

Água Água
(Olga Savary)

A Walmir Ayala

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 41.

Cantiga Meio Mórbida (Olga Savary)

Cantiga Meio Mórbida
(Olga Savary)

— Uma noite
nas ondas vou me deitar.
Descerei por sob os mares
— esquife dos próprios sonhos —,
viajarei oceanos
e areias submersas
onde, em alas, esperam
o meu enterro marinho
suicidas, afogados,
conchas, peixes e algas
mais cavalinhos do mar.

Uma lua rara, uma lua
verde, marinha, espia
a noiva recém-chegada
para uma apodrecida e selvagem
fantástica boda marinha.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 40.

Narciso (Olga Savary)

Narciso
(Olga Savary)

Se eu pudesse amar-me menos
mais te haveria de amar.
Mas sou rosa emurchecendo
ferida entre espinhos
— espinhos do próprio amor.

Se eu pudesse amar-me menos…
Mas sou fonte na noite
colhida no próprio pânico
em gelada escuridão.

Se eu pudesse amar-me menos…
Mas sou alga
(não tenra de ternura
mas doida
desgarrada
violenta)
e sou onda homicida e concha,
sal, peixe,
espuma canibal.

Não me ames porque
não posso deixar menos
de me amar.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 39.

Aviso (Olga Savary)

Aviso
(Olga Savary)

Não te abandones um só momento
sou inconstante como a nuvem
sou mutável como o vento.

Não te dês inteiro um só momento
porque um dia te quererás de volta
e levarás somente um fragmento.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 32.

Quero apenas (Olga Savary)

Quero apenas
(Olga Savary)

Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
— e entre mim e meu deserto —
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Da obra original Espelho Provisório (1947-1970)/ Olga Savary.
Extraído de Repertório Selvagem: Obra Poética Reunida/ Olga Savary,
MultiMais Editorial Produções Ltda., Rio de Janeiro (RJ), Brasil, 1998, pág. 36.

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