Categoria: J. G. de Araújo Jorge (Sonetos)

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Dueto (J. G. de Araújo Jorge)

Dueto
(J. G. de Araújo Jorge)

Bendita sejas tu, que escancaraste
uma janela em minha solidão,
e trouxeste com a luz, esse contraste
de luz e sombra em que meus passos vão…

Bendita sejas tu, que me encontraste
como um mendigo a te estender a mão,
e que inteira te deste, e assim, tornaste
milionário o meu pobre coração…

Bendita sejas tu, que, de repente
fizeste renascer um sol no poente
reacendendo esse ardor com que arremeto

e com que espero novamente a vida,
e transformaste, sem saber, querida,
a cantiga do só… num canto em dueto!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge, 4ª edição,
Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 107.

Alvorada Eterna (J. G. de Araújo Jorge)

Alvorada Eterna
(J. G. de Araújo Jorge)

Quando formos os dois já bem velhinhos
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos
depois de tantos sonhos percorridos…

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos…

Quando formos os dois já bem velhinhos
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca,

olha, amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge, 4ª edição,
Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 95.

Sabedoria (J. G. de Araújo Jorge)

Sabedoria
(J. G. de Araújo Jorge)

Não te percas em vã filosofia….
O negócio é viver….. Vive primeiro!
O pouco que alcançaste é o verdadeiro,
e o resto, sonho só, — tudo utopia.

Deixa passar o que não pode ser!
A esperança do vão, é doentia…
Ergue a mão ao que a mão pode colher
e ao que está longe, esquece e renuncia…

Se tiver que chegar o inesperado
colhe-o, que essa é a atitude de quem vence:
saber colher o bem predestinado…

A Vida é o mais efêmero dos bens
nela em verdade, nada te pertence
nem sabes aonde vais… nem de onde vens…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge, 4ª edição,
Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 79.

Rio-me (J. G. de Araújo Jorge)

Rio-me
(J. G. de Araújo Jorge)

Rio-me, e entretanto, eu sei que estou doente
que um cansaço de tudo às vezes a alma invade,
e de repente, sou como um mendigo ao fim do dia
sem ter para onde ir, à hora em que todos voltam…

Rio-me, e entretanto, eu sei que às vezes choro
sem lágrimas, sem pranto, só por dentro, e sinto
que a vida de repente é uma coisa sem nada
que lhe possa explicar um segundo que seja!

Rio-me, e entretanto, a vontade que tenho
é de, às vezes, deitar-me na rua, e esperar
que um vento sopre a luz dos meus olhos, mais forte,

e acabe de uma vez com o que nunca devera
um dia começar, se o fim que se anuncia
ninguém sabe seu nome: é vida, sonho, ou morte?

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 76.

Algo Mais… (J. G. de Araújo Jorge)

Algo Mais…
(J. G. de Araújo Jorge)

Eu queria te dar algo mais que poesia:
êste ardor que me abrasa, e me punge, e espezinha,
e se consome em vão numa íntima agonia
porque não te possuí… porque não foste minha!

Não queria deixar que partisses sozinha
sem algo de vivido entre nós dois, — queria
que a amarga solidão que em minha alma se aninha
fosse um canto de sol, de desejo e alegria!

Eu queria te dar algo mais que um lamento,
queria tatuar com meu beijo a lembrança
nem que fosse a lembrança feliz de um momento…

Com tão pouco de mim, num derradeiro empenho,
eu queria te dar algo mais… a esperança,
a fé que já perdi… o amor que já não tenho!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 50.

O Sonho (J. G. de Araújo Jorge)

O Sonho
(J. G. de Araújo Jorge)

Eras minha, ou melhor, ias ser minha…
Eu te beijava toda, lentamente,
e meu beijo de amor, tonto, ia e vinha,
como um pássaro no ar, leve, impaciente.

Primeiro, em tua boca me detinha,
depois, ia descendo, em lava ardente;
e ao descobrir-te, inteira, nuazinha,
de beijos te cobria, inteiramente:

— os seios, os quadris, o ventre, tudo…
Estranha lava de um vulcão sem chamas,
de um estranho vulcão, violento e mudo…

Mas, acordo… Os lençóis frios, desertos…
Ó meu amor, se é certo que tu me amas,
vem, que eu quero sonhar de olhos abertos!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 151.

A Imortalidade do Soneto (J. G. de Araújo Jorge)

A Imortalidade do Soneto
(J. G. de Araújo Jorge)

Soneto: como a fênix renascida
— mitológico pássaro da lenda —
no coração do poeta, a morte e a vida
ressurges em onírica legenda.

A tua forma ideal foi concebida
para servir de preito ou de oferenda;
— flor de graça e mistério, recolhida
em que “jardins suspensos”? — canto e prenda.

Permaneces de pé, imorredouro,
como uma fênix, mas de penas de ouro
que num milagre eterno se recria,

sempre cantando, sempre renascendo,
queimada, — mas os séculos vencendo —
para a glória do amor a da poesia!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 174.

Estrela-Cadente (J. G. de Araújo Jorge)

Estrela-Cadente
(J. G. de Araújo Jorge)

Ela que foi um canto de alegria
a Musa do que escrevo em seu louvor,
que pôs um véu azul de fantasia
sobre o sonho impossível dêsse amor…

Que foi luz, que foi som, beleza e cor
no meu mundo fugaz de cada dia,
que foi tudo afinal: perfume e flor
numa vida monótona e vazia…

Que está presente no meu pensamento
como uma onda em vai-vem na praia, ou
uma estrela a luzir no firmamento…

Foi estrela-cadente… Cintilou
no alto dos céus, num rápido momento,
e… nas sombras da noite se apagou!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 74.

Castigo (J. G. de Araújo Jorge)

Castigo
(J. G. de Araújo Jorge)

Amo-te no silêncio, contrafeito,
temendo a incontinência dos meus olhos,
pobre amor que se perde, inevitável,
consumido de apelos e renúncias.

Sei que és manhã ainda, no céu puro,
claridade que apenas prenuncia,
fruto de vez que a luz vai madurando
entre aragens e pássaros na altura.

Vejo-te, e me castigo a imaginar
o gesto de colher, que não encontro
para tanta beleza, — e desespero

e fecho os olhos para não te ver,
e tento em vão cegar o pensamento
se és, a um só tempo, luz que cega e atrai.

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 68.

Sonetinho (J. G. de Araújo Jorge)

Sonetinho
(J. G. de Araújo Jorge)

Não tenho jeito pra trova
apesar das que já fiz,
a quadra lembra uma cova
com a cruz dos versos em x…

Ainda estou vivo e feliz
e do que digo dou prova:
— tentei cantar numa trova,
e o meu amor pediu bis.

Bem sei que é meu o defeito
mas uma trova é tão pouco
que ao meu cantar não dá jeito…

Só mesmo um poema é capaz
de conter o amor demais
que trago dentro do peito.

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 56.

Hoje, Estou Triste… (J. G. de Araújo Jorge)

Hoje, Estou Triste…
(J. G. de Araújo Jorge)

Amor, hoje estou triste… Nesses dias
a vida de repente se reduz
a um punhado de inúteis fantasias…
… Sou uma procissão só de homens nus…

Olho as mãos, minhas pobres mãos vazias
sem esperas, sem dádivas, sem luz,
que hão semear vagas melancolias
que ninguém vai colher, mas que compus…

Amor, estou cansado, e amargo, e só…
Estou mais triste e pobre do que Jó,
— por que tentar um gesto? E para quê?

Dê-me, por Deus, um trago de esperança…
Fale-me, como se fala a uma criança
do amor, do mar, das aves… de você!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 55.

Ah, o Amor… (J. G. de Araújo Jorge)

Ah, o Amor…
(J. G. de Araújo Jorge)

Me lembro, ah, se me lembro… Eu lembraria
por mil anos ainda o que sofri;
era angústia, era dor, era agonia,
era… meu Deus! Como sobrevivi?

Ainda ouço a tua voz — cruel e fria —
renegar todo o amor que havia em ti,
ou pelo menos, que eu julguei que havia,
até… aquele instante em que te ouvi.

Depois, depois… E só eu sei o quanto
cego e faminto atropelei meus passos,
e quanta vez me vi no próprio espanto;

só eu sei… Mas voltaste… Ah, a mulher…
Ah, o amor… Fecho os olhos, abro os braços!
… Que seja tudo como Deus quiser!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 167.

Sorrio… (J. G. de Araújo Jorge)

Sorrio…
(J. G. de Araújo Jorge)

Ah! vieste me falar de antigamente
desse tempo em que fui sentimental,
quando o amor era um sonho puro e ardente
vestido em véu de espumas, nupcial…

Quando me dava, perdulariamente,
vivendo o mal sem conhecer o mal,
a levar a alma inquieta de quem sente
e de quem busca uma conquista ideal…

Era sestro da idade essa existência…
Sinal de pouca vida e muito sonho,
de muito sonho… e pouca experiência…

Hoje, no entanto, se a pensar me ponho:
— sorrio… Um vão sorriso de indulgência…
… Sinal de muita vida… e pouco sonho…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 111.

Existo (J. G. de Araújo Jorge)

Existo
(J. G. de Araújo Jorge)

Seu amor me fez real, e me deu o sentido
da alegria de ser total, completamente…
Fez de um pobre poeta em sonhos consumido
alguém que tem nas mãos um mundo! e sofre, e sente!

Seu amor foi a vida a irromper da semente
de um velho coração cansado e ressequido,
o verde que voltou ao ramo nu, pendente,
a imprevisível flor, o fruto inconcebido…

Seu amor foi milagre a cantar pelo chão
como a água, no agreste, a acenar ao viajante
a esperança, o prazer, a vida, a salvação…

Passo a existir, quem sabe? apenas porque a amei…
E ela existe talvez, a partir deste instante
porque ela e o seu amor… em versos transformei!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 110.

Dualidade (J. G. de Araújo Jorge)

Dualidade
(J. G. de Araújo Jorge)

Sei que é amor, meu amor… porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é amor, meu amor… porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

— e a perceber, em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo amor!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 139.

Milagre de Amor (J. G. de Araújo Jorge)

Milagre de Amor
(J. G. de Araújo Jorge)

Que importa, meu amor, a poesia que tanto
te preocupa porque eu a fiz antes de ti?
Hoje… para não ver os teus olhos em pranto
por Deus que eu rasgaria os versos que escrevi…

Hoje, já não são meus… Como que por encanto
estes versos que fiz, que sonhei, que vivi,
são estranhos que seguem cantando o meu canto
a falarem de um velho mundo, que esqueci…

De repente a mudança é tão grande, é tamanha,
que o passado se esvai numa sombra perdida,
e a minha própria voz me soa falsa e estranha…

Ó milagre de Amor… (Que por louco me tomem!)
Mas sinto uma alma nova em mim… tenho outra vida!
E um novo coração no peito… e sou outro homem!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 141.

Está Cheio de Ti Meu Coração… (J. G. de Araújo Jorge)

Está Cheio de Ti Meu Coração…
(J. G. de Araújo Jorge)

Está cheio de ti meu coração,
como a noite de estrelas está cheia,
tão cheia, que ao se olhar para a amplidão
o olhar de luz se inunda e se incendeia…

Está cheio de ti meu coração,
como de ondas o mar que o dorso alteia,
como a praia que estende sobre o chão
milhões de grãos do seu lençol de areia…

Está cheio de ti meu coração,
como uma taça, erguida, transbordante,
num momento de amor e de emoção,

— como o meu canto enquanto eu viva e eu cante,
como o meu pensamento a todo instante
está cheio de ti meu coração!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 140.

O Sonho (J. G. de Araújo Jorge)

O Sonho
(J. G. de Araújo Jorge)

Eras minha, ou melhor, ias ser minha…
Eu te beijava toda, lentamente,
e meu beijo de amor, tonto, ia e vinha,
como um pássaro no ar, leve, impaciente.

Primeiro, em tua boca me detinha,
depois, ia descendo, em lava ardente;
e ao descobrir-te, inteira, nuazinha,
de beijos te cobria, inteiramente:

— os seios, os quadris, o ventre, tudo…
Estranha lava de um vulcão sem chamas,
de um estranho vulcão, violento e mudo…

Mas, acordo… Os lençóis frios, desertos…
Ó meu amor, se é certo que tu me amas,
vem, que eu quero sonhar de olhos abertos!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 151.

Saudade I (J. G. de Araújo Jorge)

Saudade
I
(J. G. de Araújo Jorge)

Um segundo — não foi mais que um segundo
esse amor que vivemos — um lampejo
que iluminou, por um momento, o mundo
que foi nosso afinal naquele beijo…

Tão breve… E entretanto tão profundo!
Vertigem de uma posse, de um desejo,
lembrança — vivo ardor em que me inundo —
e em torno dela ainda palpito e adejo…

Foi amor, esse amor? Foi um minuto
cheio de eternidade e dela oriundo,
fruto sem flor, flor que morreu sem fruto.

E ao final, a ironia dolorida:
desse efêmero amor — fugaz segundo —
uma saudade para toda a vida!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 159.

Saudade II (J. G. de Araújo Jorge)

Saudade
II
(J. G. de Araújo Jorge)

Tantos tiveram tudo que sonharam…
Tantos tiveram mais, sem merecer…
Ricos, colheram muito, e não plantaram,
e se foram, inconscientes, sem saber…

Tantos foram felizes… Alcançaram
o inesperado: amor, glória, poder;
e tão pouco fizeram, ou tentaram,
foi só erguer a mão para colher.

Nós, entretanto, que semeamos tanto
vamos colhendo, amor, um quase nada
em seara inútil, nesse ansiar sem ter…

E ao fim, que nos restou, no desencanto?
— Esta saudade triste e desfeiteada
do que sonhamos mas não pôde ser!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 160.

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