Categoria: J. G. de Araújo Jorge (Poemas)

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Último Pedido (J. G. de Araújo Jorge)

Último Pedido
(J. G. de Araújo Jorge)

Quando a chama tiver que se apagar,
— como um fogo sem lenha, —
só peço a Deus, depois dos meus reveses,
que eu morra antes de ti, pra que não tenha
de morrer duas vezes…

Sim, quando chegar o instante inevitável
em que a morte tiver que separar
em nossos corações, — irmãos siameses —
o amor,
que eu morra antes de ti é tudo o que eu
hei de implorar ao Senhor.

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge, 4ª edição,
Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 161.

Tempo Perdido (J. G. de Araújo Jorge)

Tempo Perdido
(J. G. de Araújo Jorge)

Quanto tempo perdido, e como dói
pensar que nunca mais o reaveremos…
Vivemos longe um do outro, como extremos,
que o tempo, — um moinho — lentamente mói…

Quanto tempo perdido… Eu, já mudado,
sem aquele entusiasmo, aquelas ânsias
que ficaram perdidas no passado
e se vão diluindo nas distâncias…

Tu, sem aquela expressão ingênua e pura,
aquele ar de menina, que pedia
proteção para um sonho de ventura
que seu olhar inquieto refletia…

Tanto tempo perdido… E houve um momento
quando nos vimos a primeira vez,
que o amor seria belo, como o vento
como o mar, como a terra, o sol, talvez!

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 86.

Amor de fantasia (J. G. de Araújo Jorge)

Amor de fantasia
(J. G. de Araújo Jorge)

O pior, para mim, é ter que encontrar-te todo dia,
falar contigo como a uma estranha,
ver-te linda e distraída,
estender-te a mão, em cumprimentos banais,
quando tu és afinal (que importa se não sabes?)
— a minha Vida…

Em vão me confesso num olhar de ternura
que procura teus olhos, além,
onde ninguém pode chegar,
e o coração se alvoroça, e paro, e me contenho,
numa angústia apaixonada…
E linda, e distraída,
tu nem percebes nada…

Iludo o meu desejo, (esse Fauno em travesti
de velho Pierrot)
a imaginar mil coisas de poeta e de louco,
(Ah! se eu fosse o teu Senhor!)
— e te atiro palavras, como serpentinas
displicentes,
para distrair os outros, os intrusos, — presentes
a este singular carnaval
do meu amor…

Ah! se soubesses o quanto és minha, nesses instantes proibidos
da imaginação,
mas profundamente verdadeiros,
— tu, linda e distraída,
boneca e criança,
talvez acendesses, na distância dos teus olhos
para os meus olhos marinheiros
e para a minha vida,
alguma esperança.

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 51/52.

Teus Cabelos (J. G. de Araújo Jorge)

Teus Cabelos
(J. G. de Araújo Jorge)

Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos…

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los…

Têm estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e… já não me reconheço…

Tua cabeça em minha mão acende-se como uma tocha loura,
e olho em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro…

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 144.

O Véu da Fantasia (J. G. de Araújo Jorge)

O Véu da Fantasia
(J. G. de Araújo Jorge)

Desnuda-te apenas nos instantes cegos dos sentidos
quando todos nos transfiguramos,
(de nós mesmos, esquecidos…)

Meu Desejo quer-te velada novamente,
tão de pronto meus braços te soltem
tal como um tronco abatido
ao sabor da corrente…

Não te deixes assim, displicente, aos meus olhos
que banalizas tua beleza
e podes te igualar a encardidas visões…

Que desça o pano ao fim dos espetáculos
e que voltes aos bastidores
antes das novas apresentações…

Quero-te nua em meus braços, (mas deixa que te confesse:)
quero-te nua, com essa encantada nudez
que eu diria
vestida sempre com um véu
de fantasia…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 109.

As Pegadas do Amor (J. G. de Araújo Jorge)

As Pegadas do Amor
(J. G. de Araújo Jorge)

Não devíamos continuar nos amando nestes versos
feitos em hora de suprema beleza,
quando nem sequer mais existimos
nem somos dignos do fogo em que nos consumimos…

Não devíamos continuar nos amando nestes versos
com o mesmo louco e incontrolado ardor,
quando já não existimos,
e, — pior que tudo! — quando destruímos
o mito de eternidade desse amor…

Se eu pudesse, destruiria estes versos,
(Ah! como me faz mal o seu hálito frio!)
— versos que continuam a falar de nós
e me dão a impressão,
de carregar dois espectros de atores, num teatro vazio
em patética declamação…

Destino estranho o destes versos
a levarem um amor pelos tempos afora,
como um eco perdido
do que foi vida um dia, e foi ânsia
e foi voz…

Hoje são… como nossas almas descarnadas,
ou num chão de palavras, as pegadas
de um louco que passou
e se perdeu de nós…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 65/66.

Desculpa (J. G. de Araújo Jorge)

Desculpa
(J. G. de Araújo Jorge)

Quero que me desculpe, amor,
este gasto coração tão viajado
tão tatuado de amores.

Quero que me desculpe, amor,
esta ironia que me defende contra a vida
e que te fere às vezes, sem razão.

Que me perdoe, também, essa alma turva
que não pode espelhar tua alegria
e onde em vão te debruças, imprudente.

Quero que me desculpe a minha vida
fim de novela que não dá sequer
para tecer um sonho pequenino
e aquecer teu coração.

Que que me desculpe, amor, porque fui cúmplice
do destino que tramou o nosso encontro,
e porque nada fiz, por covardia,
para evitar o mal que já sabia.

Quero que me desculpe, amor, tão pobre amor,
tão gasto amor, tão viajado amor,
resto de um pouco amor que ainda subsiste,

— que encontraste no cais, quando chegavas,
e eu já partia, embebedado e triste…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 119.

Gosto Quando Me Falas de Ti… (J. G. de Araújo Jorge)

Gosto Quando Me Falas de Ti…
(J. G. de Araújo Jorge)

Gosto quando me falas de ti… e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos tranqüilos.

Gosto quando me falas de ti… e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão como o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs…

Gosto quando me falas de ti… quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só, te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti… e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino teu destino, como um caminho certo, cuja primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti… porque percebo que te desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrolava inútil como um novelo
que nos cai da mão…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág.149/150.

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