Categoria: Guilherme de Almeida (Sonetos)

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Soneto X (Guilherme de Almeida)

Soneto X
(Guilherme de Almeida)

Vou partir, vais ficar. “Longe da vista,
longe do coração” — diz o ditado.
Basta, porém, que o nosso amor exista,
para que eu parta e fiques sem cuidado.

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta,
quanto mais longe, mais te quer ao lado;
tanto mais te ama, quanto mais te avista
e, antes de ver-te, já te havia amado.

Vou partir. Para longe? Para perto?
— Não sei: longe de ti tudo é deserto
e todas as distâncias são iguais.

Como eu quisera que, na despedida,
quando se unissem nossas mãos, querida,
nunca pudessem desunir-se mais!

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 30.

Soneto IX (Guilherme de Almeida)

Soneto IX
(Guilherme de Almeida)

Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário,
ouvindo o canto que daqui se evola,
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente
que todo o mundo pensará que eu canto.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 29.

Soneto VIII (Guilherme de Almeida)

Soneto VIII
(Guilherme de Almeida)

Lês um romance. Eu te contemplo. Ondeia,
lá fora, um vento muito leve e brando;
cheira a jasmins o varandim, brilhando
ao doentio clarão da lua cheia.

Vais lendo. E, enquanto tua mão folheia
o livro, eu vejo que, de quando em quando,
estremecendo, sacudindo, arfando,
teu corpo todo num delírio anseia.

Lês. São cenas de amor: — o encontro, o ciúme,
idílios, beijos ao luar… Perfume
que sobe da alma, e gira, e se desfaz…

Vais lendo. E tu não sabes que, sozinho,
eu te sigo, eu te sinto, eu te adivinho,
lendo em teus olhos o que lendo estás.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 28.

Soneto VII (Guilherme de Almeida)

Soneto VII
(Guilherme de Almeida)

Morre o dia. Do quadro da vidraça,
nós contemplamos silenciosamente
o adeus do sol à terra, à luz escassa,
à meia-luz da tarde confidente.

São como um par de noivos que se abraça;
— esse roxo dorido do sol poente
tem a tristeza voluptuosa e ardente
de um longo abraço que se desenlaça.

Uma ânsia de viver me abala os músculos;
dão-me os teus olhos a impressão furtiva
de dois grandes, tristíssimos crepúsculos.

E, como a orquestração de um mau desejo,
quebra o sono da tarde pensativa
o gorjeio frenético de um beijo.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 27.

Soneto VI (Guilherme de Almeida)

Soneto VI
(Guilherme de Almeida)

Espero-te, pensando: “ela não tarda…
Prometeu-me: há de vir”… E com que aflitas,
longas horas de angústia tu me agitas
o coração que, tímido, te aguarda!

E espero, tristes horas infinitas,
um momento de vida que retarda.
Súbito irrompes, trêmula e galharda,
numa nuvem de rendas e de fitas.

Vens a mim. Corro, tomo-te em meus braços,
e te estreito, estreitando mais os laços
do teu, do meu, do nosso grande amor.

E o teu beijo, e o meu beijo, e os nossos beijos
são mil rosas vermelhas de desejos,
na primavera do teu corpo em flor.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 26.

 

Soneto V (Guilherme de Almeida)

Soneto V
(Guilherme de Almeida)

Vem, partamos, que o mundo nos espera!
Não te assombrem as noites sem luares,
nem estranhes as pedras que pisares,
nem te engane a miragem da quimera.

Muito espinho hás de ver que dilacera
a própria flor com que brotou. Não pares:
verás, no estio, névoa pelos ares
e morrerem jardins, na primavera.

Mas que importa? Sou moço, és bela e temos
um bem que nós somente conhecemos
e que a vida não dá porque o não tem.

Vamos com nosso amor, vamos agora,
de olhos fechados, pela vida afora,
de braços dados, pelo mundo além!

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 25.

Soneto IV (Guilherme de Almeida)

Soneto IV
(Guilherme de Almeida)

Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa.

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dor num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

— É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perdê-lo.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 24.

Soneto III (Guilherme de Almeida)

Soneto III
(Guilherme de Almeida)

Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 23.

Soneto II (Guilherme de Almeida)

Soneto II
(Guilherme de Almeida)

Eu não sei quem tu és. Sonhei-te linda,
amei-te em sonho e vivo neste sonho.
Para encontrar-te, numa dor infinda
pus-me a caminho, pálido e tristonho.

Tu não sabes quem sou. Sonhas-me ainda
a alma triste dos versos que componho.
E, suspirando pela minha vinda,
pulsa, em teu peito, o coração risonho.

Sonhamos. Quando, um dia, eu for velhinho,
hei de encontrar-te, velha, no caminho…
E juntos, cambaleando, aos solavancos,

nós levaremos, pela tarde calma,
toda uma primavera dentro da alma,
todo um inverno de cabelos brancos…

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 22.

Soneto I (Guilherme de Almeida)

Soneto I
(Guilherme de Almeida)

O pequenino livro em que me atrevo
a mudar numa trêmula cantiga
todo o nosso romance, ó minha amiga
será, mais tarde, nosso eterno enlevo.

Tudo o que fui, tudo o que foste eu devo
dizer-te: e tu consentirás que o diga,
que te relembre nossa vida antiga,
nos dolorosos versos que te escrevo.

Quando, velhos e tristes, na memória
rebuscarmos a triste e velha história
dos nossos pobres corações defuntos,

que estes versos, nas horas de saudade,
prolonguem numa doce eternidade
os poucos meses que vivemos juntos.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 21.

Soneto XXI (Guilherme de Almeida)

Soneto XXI
(Guilherme de Almeida)

Fico — deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
“que é feito dela?” — indagarão — coitados!
E os amigos dirão: “que é feito dela?”

Parte! E se olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 41.

Soneto XVIII (Guilherme de Almeida)

Soneto XVIII
(Guilherme de Almeida)

Quando as folhas caírem nos caminhos
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos.

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
— “Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como, ele vai contente!”

E por onde eu passar e passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos…

E por nós, na tristeza do sol-posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
e hão de falar os teus cabelos brancos.

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 38.

Soneto XXVII (Guilherme de Almeida)

Soneto XXVII
(Guilherme de Almeida)

Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado
passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo, esquecido de te olhar — coitado!
Vais — coitada! — esquecida de que existo:
como se nunca tu me houvesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado!

Se, às vezes, sem querer, nos entrevemos;
se, quando passo, teu olhar me alcança,
se os meus olhos te alcançam, quando vais,

— ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos. —
volta-nos sempre a pálida lembrança
daqueles tempos que não voltam mais!

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 47.

Soneto II (Guilherme de Almeida)

Soneto II
(Guilherme de Almeida)

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura e clara e vagarosa e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem pela janela
trazer luz e calor a esta alma escura e fria.

E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela.
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro
e claro e vagaroso e belo, na luz de ouro
do poente me dizia adeus como um sol triste.

E falou-me de longe: — “eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

Da obra original Os últimos românticos.
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 63.

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