Categoria: Florbela Espanca/ Livro de Mágoas

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Impossível (Florbela Espanca)

 

Impossível
(Florbela Espanca)

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
sempre a pensar na dor que não existe…

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?!…”
Quando se sofre, o que se diz é vão…
Meu coração, tudo, calado, ouviste…

Os meus males ninguém mos adivinha…
A minha Dor não fala, anda sozinha…
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!…

Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus …ninguém… A minha Dor não cabe
nos cem milhões de versos que eu fizera!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 64.

 

Em busca do amor (Florbela Espanca)

 

Em busca do amor
(Florbela Espanca)

O meu Destino disse-me a chorar:
“pela estrada da Vida vai andando;
e, aos que vires passar, interrogando
acerca do Amor que hás de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
as contas do meu sonho desfiando…
E noite e dia, à chuva e ao luar,
fui sempre caminhando e perguntando…

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu… olhou… e riu…

Agora pela estrada, já cansados,
voltam todos pra trás, desanimados…
E eu paro a murmurar: “ninguém o viu!”

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 63.

Velhinha (Florbela Espanca)

Velhinha
(Florbela Espanca)

Se os que me viram já cheia de graça
olharem bem de frente para mim,
talvez, cheios de dor, digam assim:
“já ela é velha! Como o tempo passa!”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
que tu me fazes, olho-os indulgente,
como se fosse um bando de netinhos…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 62.

Mais triste (Florbela Espanca)

Mais triste
(Florbela Espanca)

É triste, diz a gente, a vastidão
do Mar imenso! E aquela voz fatal
com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou… eu … afinal,
a coisa mais magoada das que o são?!

Poentes de agonia trago-os eu
dentro de mim e tudo quanto é meu
é um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa!
E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 60.

Sem remédio (Florbela Espanca)

 

Sem remédio
(Florbela Espanca)

Aqueles que me têm muito amor
não sabem o que sinto e o que sou…
Não sabem que passou, um dia, a Dor
à minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
este frio que anda em mim, e que gelou
o que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio.
A mesma angústia funda, sem remédio,
andando atrás de mim, sem me largar!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 60.

 

A minha tragédia (Florbela Espanca)

A minha tragédia
(Florbela Espanca)

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
do sol, alegre, quente, na subida,
parece que minh’alma é perseguida
por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade
trazes-me embriagada, entontecida!…
Duns beijos que me deste noutra vida,
trago em meus lábios roxos, a saudade!…

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
que me leiam nos olhos o segredo
de não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
como esta estranha e doida borboleta
que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 59.

Tédio (Florbela Espanca)

Tédio
(Florbela Espanca)

Passo pálida e triste. Oiço dizer:
“que branca que ela é! Parece morta!”
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
— O que é que isso me faz?… O que me importa? …
O frio que trago dentro gela e corta
tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
é menos dor intensa que frieza,
é um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
O mesmo lago plácido, dormente…
E os dias, sempre os mesmos, a correr…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 58.

Ao vento (Florbela Espanca)

 

Ao vento
(Florbela Espanca)

O vento passa a rir, torna a passar,
em gargalhadas ásperas de demente;
e esta minh’alma trágica e doente
não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
vento que ris de mim, sempre a troçar,
vento que ris do mundo e do amar,
a tua voz tortura toda a gente!…

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
e não rias assim!… Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir pla vida fora!!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 57.

 

Para quê?! (Florbela Espanca)

 

Para quê?!
(Florbela Espanca)

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
que o nosso peito ri à gargalhada,
flor que é nascida e logo desfolhada,
pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos de amor! Pra quê?! Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
como pobres que vão de porta em porta!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 56.

 

 

 

 

 

Languidez (Florbela Espanca)

Languidez
(Florbela Espanca)

Tardes da minha terra, doce encanto,
tardes duma pureza de açucenas,
tardes de sonho, as tardes de novenas,
tardes de Portugal, as tardes de Anto,

como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
horas de fumo e cinza, horas serenas,
minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
que poisam sobre duas violetas,
asas leves cansadas de voar…

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
traçam gestos de sonho pelo ar…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 55.

De joelhos (Florbela Espanca)

De joelhos
(Florbela Espanca)

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
a tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
da tua vida o doce alvorecer…
Bendita seja a Lua, que inundou
de luz, a Terra, só para te ver…

Benditos sejam todos que te amarem,
as que em volta de ti ajoelharem
numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
alguém, bendita seja essa Mulher,
bendito seja o beijo dessa boca!!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 54.

Alma perdida (Florbela Espanca)

Alma perdida
(Florbela Espanca)

Toda esta noite o rouxinol chorou,
gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma de gente,
tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
que eu pensei que tu eras a minh’alma
que chorasse perdida em tua voz!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 53.

A um livro (Florbela Espanca)

A um livro
(Florbela Espanca)

No silêncio de cinzas do meu Ser
agita-se uma sombra de cipreste,
sombra roubada ao livro que ando a ler,
a esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
as orações que choro e rio e canto!…

Poeta igual a mim, ai quem me dera
dizer o que tu dizes!… Quem soubera
velar a minha Dor desse teu manto!…
Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 52.

Pior Velhice (Florbela Espanca)

Pior Velhice
(Florbela Espanca)

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
de alvas rosas a fronte da mulher,
na minha fronte mística de louca
martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova… A mocidade
estará só, então, na nossa idade,
ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
aquela onde nem sequer existe
lembrança de ter sido nova… outrora…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 51.

Desejos vãos (Florbela Espanca)

Desejos vãos
(Florbela Espanca)

Eu queria ser o Mar de altivo porte
que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
a pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
o bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 50.

Amiga (Florbela Espanca)

Amiga
(Florbela Espanca)

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
a tua amiga só, já que não queres
que pelo teu amor seja a melhor
a mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
o que me importa a mim?! O que quiseres
é sempre um sonho bom! Seja o que for
bendito sejas tu por m’o dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!… Que fantasia louca
guardar assim, fechados, nestas mãos,
os beijos que sonhei pra minha boca!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 49.

Angústia (Florbela Espanca)

Angústia
(Florbela Espanca)

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! … e o pensamento
sempre a morder-nos bem, dentro de nós …
Querer apagar no céu — ó sonho atroz! —
O brilho duma estrela, com o vento! …

E não se apaga, não … nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga…
Vem sempre perguntando: “O que te resta?…”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
ser rugido de tigre na floresta!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 48.

Noite de Saudade (Florbela Espanca)

Noite de Saudade
(Florbela Espanca)

A Noite vem poisando devagar
sobre a Terra, que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
a quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
a sua dor que é cheia de tortura…
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem…
Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 47.

A flor do sonho (Florbela Espanca)

A flor do sonho
(Florbela Espanca)

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
miraculosamente abriu em mim,
como se uma magnólia de cetim
fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
e não posso entender como é que, enfim,
essa tão rara flor abriu assim! …
Milagre … fantasia … ou, talvez, sina …

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
que tem que sejam tristes os meus olhos
se eles são tristes pelo amor de ti?! …

Desde que em mim nasceste em noite calma,
voou ao longe a asa da minh’alma
e nunca, nunca mais eu me entendi …

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 46.

A maior tortura (Florbela Espanca)

A maior tortura
(Florbela Espanca)

A um grande poeta de Portugal

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia…
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
a minha atroz, imensa nostalgia! …
A minha pobre Mãe tão branca e fria
deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
a urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
não ser poeta assim como tu és,
para gritar num verso a minha Dor! …

Da obra original “Livro de Mágoas”, reunido em Melhores Poemas/ Florbela Espanca:
seleção de Zina C. Bellodi, Global Editora e Distrib. Ltda., São Paulo, SP,
1ª edição, 2005, pág. 45.

Pequenina (Florbela Espanca)

Pequenina
(Florbela Espanca)

À Maria Helena Falcão Risques

És pequenina e ris… A boca breve
é um pequeno idílio cor-de-rosa…
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente…
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente…

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
que ela afaste de ti aquelas dores
que fizeram de mim isto que sou!
Da obra original “Livro de Mágoas”, reunido em Melhores Poemas/ Florbela Espanca:
seleção de Zina C. Bellodi, Global Editora e Distrib. Ltda., São Paulo, SP,
1ª edição, 2005, pág. 44.

Neurastenia (Florbela Espanca)

Neurastenia
(Florbela Espanca)

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
faz na vidraça rendas de Veneza…

O vento desgrenhado chora e reza
por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
batem as asas pela Natureza…

Chuva… tenho tristeza! Mas por quê?!
Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
digam isto que sinto que eu não posso!!…

Da obra original “Livro de Mágoas”, reunido em Melhores Poemas/ Florbela Espanca:
seleção de Zina C. Bellodi, Global Editora e Distrib. Ltda., São Paulo, SP,
1ª edição, 2005, pág. 43.

Dizeres íntimos (Florbela Espanca)

Dizeres íntimos
(Florbela Espanca)

É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
vestidinhos de roxo, como crentes
do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
As minhas mãos esguias, languescentes,
de brancos dedos, uns bebés doentes
que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,
é ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos… (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida!…”
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!”

Da obra original “Livro de Mágoas”, reunido em Melhores Poemas/ Florbela Espanca:
seleção de Zina C. Bellodi, Global Editora e Distrib. Ltda., São Paulo, SP,
1ª edição, 2005, pág. 41.

A minha dor (Florbela Espanca)

 

A minha dor
(Florbela Espanca)

A minha Dor é um convento ideal
cheio de claustros, sombras, arcarias,
aonde a pedra em convulsões sombrias
tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
dum roxo macerado de martírios,
tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
noites e dias rezo e grito e choro,
e ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 40.

 

 

 

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