Categoria: Flora Figueiredo

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Lugar marcado (Flora Figueiredo)

Lugar marcado
(Flora Figueiredo)

Sempre no mesmo lugar,
as cadeiras vazias questionam seu enredo.
Estão vazias dos que saíram cedo
ou daqueles que resistem em chegar?

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.,
São Paulo (SP), 2005, pág. 24.

Meias de jornal (Flora Figueiredo)

Meias de jornal
(Flora Figueiredo)

Pés no chão, endurecidos de tão frios.
Nus, como o verde da palmeira
que lava-enxuga, lava-enxuga.
Para a crueza da noite, meias estampadas:
são folhas do jornal de sexta-feira.
Uma luz de alumínio sobre a manchete:
A CPI DA CORRUPÇÃO DEU EM NADA.
… no corrimão da madrugada, dorme um pivete.

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.,
São Paulo (SP), 2005, pág. 24.

Retrospectiva (Flora Figueiredo)

Retrospectiva
(Flora Figueiredo)

Porque a vida é feita de proibições,
eu não compus todas as canções,
não percebi a brisa suspirar,
eu esqueci cantigas de ninar,
dei chances demais à voz dos credos,
não rompi de vez todos os medos,
roubei do tempo um tanto de carinho,
não vi as flor amar o passarinho,
perdi o trem na curva da vertente
e não deixei o mel melar completamente,

Porque a vida é feita de proibições,
larguei o fio, soltaram-se os balões,
deixei que o pião revirasse sozinho,
mandei que o zangão se zangasse baixinho,
desprezei a bruma que baixou o véu,
permiti à palavra dormir no papel,
evitei o desvio que atravessa a estrada,
não quis o desafio da ronda embriagada,
não li o poema do poeta maldito
e não tive o dilema do beijo infinito.

Porque ainda há tempo para o encantamento,
quebre-se o vidro do sermão absoluto,
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto,
que a primavera quer amar o chão de vento.

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.,
São Paulo (SP), 2005, pág. 22.

Gangorra (Flora Figueiredo)

Gangorra
(Flora Figueiredo)

Eu namoro a noite,
você apaga a lua;

eu perfumo o lençol,
você dorme na rua;

eu aprumo a estrela,
você a entorta;

eu colho a maçã,
você traz a lagarta;

eu rego o ipê,
você parte o galho;

eu tempero com sal,
você talha o molho;

eu lavo o cristal,
você trinca a ponta;

eu adoço com mel,
você passa do ponto;

eu beijo na boca,
você faz de conta.

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.,
São Paulo (SP), 2005, pág. 20/21.

Origami (Flora Figueiredo)

Origami
(Flora Figueiredo)

Dobra que dobra,
redobra.
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.,
São Paulo (SP), 2005, pág. 19.

Leva-e-traz (Flora Figueiredo)

Leva-e-traz
(Flora Figueiredo)

Quando a palmeira balança segredos,
vale a pena escutá-la.
O vento lhe traz notícias frescas todo dia.
Quem foi que disse que vento não fala?

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda.,
São Paulo (SP), 2005, pág. 18.

Última Página (Flora Figueiredo)

Última Página
(Flora Figueiredo)

Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
atropela minha hora,
despreza minha agenda.
Corre prepotente
a disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece e não se emenda.

Deveria haver algum decreto
que obrigasse o tempo a desacelerar
e a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria conta
dos livros que vão se empilhando,
das melodias que estão me aguardando,
das saudades que venho sentindo,
das verdades que eu ando mentindo,
das promessas que venho esquecendo,
dos impulsos que sigo contendo,
dos prazeres que chegam partindo,
dos receios que partem, voltando.

Agora, que redijo a página final,
percebo o tanto de caminho percorrido
ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo e sua pressa desleal,
agradeço a Deus por ter vivido,
amanhecer e continuar teimando.

Em Chão de Vento/ Flora Figueiredo, 1ª edição,
Geração de Comunicação Integrada Comercial Ltda., São Paulo (SP),
2005, pág. 90.

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