Categoria: Deborah Brennand

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Sobre frágeis roseiras (Deborah Brennand)

Sobre frágeis roseiras
(Deborah Brennand)

Malefício — o anel roxo espatifado.
E a mão do tempo, estendida nos capins.
Deixa os pássaros embaraçarem vôos
e a brisa contar enredos do verão.

Contar o mistério de um fruto mordido,
de visões mouriscas nos desertos,
de gritos proféticos nas altas pedras,
ecos assombrados nas furnas do tigre.

Maleficio — estilhaços de ametista.
E a mão do tempo, estremecida,
tange pássaros, esmaga a brisa e se abate
até sobre os frágeis roseirais do amanhã.

Que malvadeza sem fim!

Da obra original O cadeado Negro.
Extraído de Poesia reunida/ Deborah Brennand,
Companhia Editora de Pernambuco, Recife (PE), Brasil,
2007, pág. 367.

Só alguns cravos (Deborah Brennand)

Só alguns cravos
(Deborah Brennand)

Nada sei de tílias e carvalhos
agapantos tulipas jasmins do Cairo.
Conheço bem urtigas, locas, mato
algemas de cipós liana em laços.

Por sorte, só por sorte ainda guardo
naquele pote a colônia macerada.
Dói a alma, dói e não passa,
lembrando a timidez dos bredos.

E, agora, para enfeitar uma casa
alva casa entre gramas sem trato
vôo pousando, varanda em asas
eu escolhi só alguns cravos.

Cravos sem sangue,
todavia, encarnados.

Da obra original O Cadeado Negro.
Extraído de Poesia reunida/ Deborah Brennand,
Companhia Editora de Pernambuco, Recife (PE), Brasil,
2007, pág. 461.

A Rosa (Deborah Brennand)

A Rosa
(Deborah Brennand)

Não estremeças a mão
desmancha ferozmente, igual ao vento,
estas pétalas de sangue, ainda vivas,
armadas na desordem de uma flor.

Quem fui? Que sou?

Agora, uma senhora antiga
que na tarde silenciosa de abril,
borda sonhos na forma
de perfeita e sangrenta rosa.
E tu quem és agora?

Em Poesia reunida/ Deborah Brennand,
Companhia Editora de Pernambuco, Recife (PE), Brasil,
2007, pág. 45.

Flores Encarnadas (Deborah Brennand)

Flores Encarnadas
(Deborah Brennand)

Os súditos das flores encarnadas
com fitas de ouro lançam os caules
e a raiz, do silêncio ergue a folha
na tímida fresta do mármore.
Coisas de amor.

Um dia alguém saiu a procurar
lembranças de vôos. Lembranças,
onde aves trincam céus e opalas
ou na muralha que avara guarda
corolas abertas de ocasos.

Já que chegas de onde não sei, fala:
dize que a terra é um pouso de estrelas,
as chuvas são grãos maduros d’água,
tudo eu creio e laço de fitas os caules
súdita que sou das flores encarnadas.

Em Poesia reunida/ Deborah Brennand,
Companhia Editora de Pernambuco, Recife (PE), Brasil
2007, pág. 457.

Só Flores (Deborah Brennand)

Só Flores
(Deborah Brennand)

Entregou o silêncio
e um feixe de petúnias.
Que mal havia? Eram flores,
flores de roxo.
Ele as veria ressecarem
arrancadas da sombra
ao léu da luz queimando.
Que mal havia?
– Eram só flores.

Em Poesia reunida/ Deborah Brennand,
Companhia Editora de Pernambuco, Recife (PE), Brasil
2007, pág. 635.

A flor que eu teço é rubra (Deborah Brennand)

A flor que eu teço é rubra
(Deborah Brennand)

As fontes da noite, o veneno das raízes,
um grito roxo de dálias assustando o jardim,
a brisa solta com revoltas crinas,
tudo isso, até julho e a lua nos capins
eu aceito, mas recuso a carta aberta da vida
com letras de ouro maldizendo os sonhos.

A flor que eu teço é rubra, vive sem vida.

Aceito que desames, a eternidade foi ontem
nos ramos onde pousaram as andorinhas.
Ruínas? Já vi a pedra no areal deserto,
e o sol exilar a última flor do cardo.
Não temo, deixo um ponteiro vacilar
entre a minh’alma de ferro e a tua sombra.

A flor que eu teço é rubra.

Vive sem Vida.

Em Poesia reunida/ Deborah Brennand,
Companhia Editora de Pernambuco, Recife (PE), Brasil,
2007, pág. 351.

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