Categoria: Cecília Meireles

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Cântico XX (Cecília Meireles)

Cântico
XX
(Cecília Meireles)

Não digas que és dono.
Sempre que disseres
roubas-te a ti mesmo.
Tu, que és senhor de tudo…
Deixa os escravos rugirem,
querendo.
Inutiliza o gesto possuidor das mãos.
Sê a árvore que floresce
que frutifica
e se dispersa no chão.
Deixa os famintos despojarem-te.
Nos teus ramos serenos
há florações eternas
e todas as bocas se fartarão.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 49.

Cântico XIX (Cecília Meireles)

Cântico
XIX
(Cecília Meireles)

Não tem mais lar o que mora em tudo.
Não há mais dádivas
para o que não tem mãos.
Não há mundos nem caminhos
para o que é maior que os caminhos
e os mundos.
Não há mais nada além de ti.
Porque te dispersaste…
Circulas em todas as vidas
pairas sobre todas as coisas
e todos te sentem
sentem-te como a si mesmos
e não sabem falar de ti.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 47.

Cântico XVIII (Cecília Meireles)

Cântico
XVIII
(Cecília Meireles)

Quando os homens na terra sofrerem
sofrimento do corpo,
sofrimento da alma,
tu não sofrerás.
Quando os olhos chorarem
e as mãos se quebrarem de angústia
e a voz se acabar no rogo e na ameaça,
quando os homens viverem,
tu não viverás.
Quando os homens morrerem na vida,
quando os homens nascerem na morte,
na vida e na morte nunca mais
nunca mais tu não morrerás.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 45.

Cântico XVII (Cecília Meireles)

Cântico
XVII
(Cecília Meireles)

Perguntarão pela tua alma.
A alma que é ternura,
bondade,
tristeza,
amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
livre, por entre os mundos…
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
e mais amargo,
porque não se pode mostrar,
porque ninguém pode ver…

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 43.

Cântico XVI (Cecília Meireles)

Cântico
XVI
(Cecília Meireles)

Tu ouvirás esta linguagem,
simples,
serena,
difícil.
Terás um encanto triste.
Como os que vão morrer,
sabendo o dia…
Mas intimamente
quererás esta morte,
sentindo-a maior que a vida.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 41.

Cântico XV (Cecília Meireles)

Cântico
XV
(Cecília Meireles)

Não queiras ser.
Não ambiciones.
Não marques limites ao teu caminho.
A Eternidade é muito longa.
E dentro dela tu te moves, eterno.
Sê o que vem e o que vai.
Sem forma.
Sem termo.
Como uma grande luz difusa.
Filha de nenhum sol.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 39.

Cântico XIV (Cecília Meireles)

Cântico
XIV
(Cecília Meireles)

Eles te virão oferecer o ouro da Terra.
E tu dirás que não.
A beleza.
E tu dirás que não.
O amor.
E tu dirás que não, para sempre.
Eles te oferecerão o ouro d’além da Terra.
E tu dirás sempre o mesmo.
Porque tens o segredo de tudo.
E sabes que o único bem é o teu.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 37.

Cântico XIII (Cecília Meireles)

Cântico
XIII
(Cecília Meireles)

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 35.

Cântico XII (Cecília Meireles)

Cântico
XII
(Cecília Meireles)

Não fales as palavras dos homens.
Palavras com vida humana.
Que nascem, que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas.
Vive em todos os tempos
Pela tua voz.
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-se para sempre.
Em todos os corações.
Em todos os mundos.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 33.

Cântico XI (Cecília Meireles)

Cântico
XI
(Cecília Meireles)

Vê formaram-se sobre todas as águas
todas as nuvens.
Os ventos virão de todos os nortes.
Os dilúvios cairão sobre os mundos.
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam.
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim…

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição,
Editora Moderna Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2003, pág. 31.

Cântico X (Cecília Meireles)

Cântico
X
(Cecília Meireles)

Este é o caminho de todos que virão.
Para te louvarem.
Para não te verem.
Para te cobrirem de maldição.
Os teus braços são muito curtos.
E é larguíssimo este caminho.
Com eles não poderás impedir
Que passem, os que terão de passar,
nem que fiques de pé,
na mais alta montanha,
com os teus braços em cruz.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 29.

Cântico IX (Cecília Meireles)

Cântico
IX
(Cecília Meireles)

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
há tanto tempo,
pelo teu corpo, que enlouqueceu.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 27.

Cântico VIII (Cecília Meireles)

Cântico
VIII
(Cecília Meireles)

Não digas: “o mundo é belo”.
Quando foi que viste o mundo?
Não digas: “o amor é triste”.
Que é que tu conheces do amor?
Não digas: “a vida é rápida”.
Como foi que mediste a vida?
Não digas: “eu sofro”.
Que é que dentro de ti és tu?
Que foi que te ensinaram
que era sofrer?

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 25.

Cântico VII (Cecília Meireles)

Cântico
VII
(Cecília Meireles)

Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Por não esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
que não te inquiete
se o amor leva à felicidade,
se leva à morte,
se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 23.

Cântico VI (Cecília Meireles)

Cântico
VI
(Cecília Meireles)

Tu tens um medo:
acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 21.

Cântico V (Cecília Meireles)

Cântico
V
(Cecília Meireles)

Esse teu corpo é um fardo.
É uma grande montanha abafando-te.
Não te deixando sentir o vento livre
do Infinito.
Quebra o teu corpo em cavernas
para dentro de ti rugir
a força livre do ar.
Destrói mais essa prisão de pedra.
Faze-te recepo.
Âmbito.
Espaço.
Amplia-te.
Sê o grande sopro
que circula…

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 19.

Cântico IV (Cecília Meireles)

Cântico
IV
(Cecília Meireles)

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 17.

Cântico III (Cecília Meireles)

Cântico
III
(Cecília Meireles)

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
sem pensar.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 15.

Cântico II (Cecília Meireles)

Cântico
II
(Cecília Meireles)

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
é a passagem que se continua.
É a tua eternidade…
É a eternidade.
És tu.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 13.

Cântico I (Cecília Meireles)

Cântico
I
(Cecília Meireles)

Não queiras ter Pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
te ponha em tudo,
como Deus.

Em Cânticos/ Cecília Meireles, 3ª edição, Editora Moderna Ltda.,
São Paulo (SP), 2003, pág. 11.

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