Categoria: Alphonsus de Guimaraens (Sonetos)

Mostrando postagens com marcador Alphonsus de Guimaraens (Sonetos).
Voltar para a página anterior

Rosas (Alphonsus de Guimaraens)

Rosas
(Alphonsus de Guimaraens)

Rosas que já vos fostes, desfolhadas
por mãos também que já se foram, rosas
suaves e tristes! Rosas que as amadas,
mortas também, beijaram suspirosas…

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
mas cheias do calor das amorosas…
Sois aroma de alfombras silenciosas,
onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
outras cheias de viço e de frescura,
rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
para coroar-me, rosas passageiras,
o sonho que se esvai na desventura?

Da obra original “Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte”.
Extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/
seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho, 4ª edição,
Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil,
2001, pág. 107.

Vagueiam suavemente os teus olhares… (Alphonsus de Guimaraens)

Vagueiam suavemente os teus olhares…
(Alphonsus de Guimaraens)

Vagueiam suavemente os teus olhares
pelo amplo céu todo franjado em linho:
comprazem-te as visões crepusculares…
Tu és uma ave que perdeu o ninho.

Em que nichos doirados, em que altares
repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
que vês no azul o teu caixão de pinho.

És a essência de tudo quanto desce
do solar das celestes maravilhas…
— Harpa dos crentes, cítola da prece.

Lua eterna que não tivesse fases,
cintilas branca, imaculada brilhas,
e poeiras de astros nas sandálias trazes…

Da obra original “Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte”.
Extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/
seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho, 4ª edição,
Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil,
2001, pág. 104.

Celeste… É assim, divina, que te chamas… (Alphonsus de Guimaraens)

Celeste… É assim, divina, que te chamas…
(Alphonsus de Guimaraens)

Celeste… É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste…
Que outro terias entre humanas damas,
tu que embora na terra do céu vieste?

Celeste… E como tu és do céu não amas:
forma imortal que o espírito reveste
de luz, não temes sol, não temes chamas,
porque és sol, porque és luar, sendo celeste.

Incoercível como a melancolia,
andas em tudo: o sol no poente vasto
pede-te a mágoa do findar do dia.

E a lua, em meio à noite constelada,
pede-te o luar indefinido e casto
da tua palidez de hóstia sagrada.

Da obra original “Dona Mística”.
Extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/
seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho, 4ª edição,
Global Editora e Distribuidora Ltda.,São Paulo (SP) Brasil,
2001, pág. 30.

 

Como se moço e não bem velho eu fosse… (Alphonsus de Guimaraens)

Como se moço e não bem velho eu fosse…
(Alphonsus de Guimaraens)

Como se moço e não bem velho eu fosse
uma nova ilusão veio animar-me:
na minh’alma floriu um novo carme,
o meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
todo em raios que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha,
tentando unir ao peito a luz dos círios
que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do áureo sonho em sobressalto:
do céu tombei ao caos dos meus martírios,
sem saber para que subi tão alto…

Da obra original “Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte”.
Extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/
seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho, 4ª edição,
Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil,
2001, pág. 118.

Encontrei-te. Era o mês… Que importa o mês? agosto… (Alphonsus de Guimaraens)

Encontrei-te. Era o mês… Que importa o mês? agosto…
(Alphonsus de Guimaraens)

Encontrei-te. Era o mês… Que importa o mês? agosto,
setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
brilhasse o luar, que importa? ou fosse o sol já posto,
no teu olhar todo o meu sonho andava esparso.

Que saudades de amor na aurora do teu rosto,
que horizonte de fé, no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março.

Encontrei-te. Depois… depois tudo se some:
desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira…
Era o dia… Que importa o dia, um simples nome?

Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
segunda, terça ou quarta, ou quinta ou sexta-feira,
brilhasse o sol, que importa? ou fosse o luar já morto?

Da obra original “Kiriale”.
Extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/
seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho, 4ª edição,
Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil,
2001, pág. 36.

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos… (Alphonsus de Guimaraens)

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos…
(Alphonsus de Guimaraens)

Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão – “Ai! nada somos,
pois ela se morreu, silente e fria…”
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

Da obra original “Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte”, extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/ seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho, 4ª edição, Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2001, pág. 109.

Náufrago (Alphonsus de Guimaraens)

Náufrago
(Alphonsus de Guimaraens)

E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo.
Perde-se o meu olhar pelas trevas sem fim.
Medonha é a escuridão do céu, de extremo a extremo…
De que noite sem luar, mísero e triste, vim?
 
Amedronta-me a terra, e se a contemplo, tremo.
Que mistério fatal corveja sobre mim?
E ao sentir-me no horror do caos, como um blasfemo,
não sei por que padeço, e choro, e anseio assim.
 
A saudade tirita aos meus pés: vai deixando
atrás de si a mágoa e o sonho… E eu, miserando,
caminho para a morte alucinado e só.
 
O naufrágio, meu Deus! Sou um navio sem mastros.
Como custa a minha alma a transformar-se em astros,
como este corpo custa a desfazer-se em pó!

Da obra original “Kiriale”, extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/ seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho,  4ª edição, Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2001, pág. 21.

Send this to a friend