Velhinha (Florbela Espanca)

Velhinha
(Florbela Espanca)

Se os que me viram já cheia de graça
olharem bem de frente para mim,
talvez, cheios de dor, digam assim:
“já ela é velha! Como o tempo passa!”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
que tu me fazes, olho-os indulgente,
como se fosse um bando de netinhos…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 62.

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