Tédio (Florbela Espanca)

Tédio
(Florbela Espanca)

Passo pálida e triste. Oiço dizer:
“que branca que ela é! Parece morta!”
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
— O que é que isso me faz?… O que me importa? …
O frio que trago dentro gela e corta
tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
é menos dor intensa que frieza,
é um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
O mesmo lago plácido, dormente…
E os dias, sempre os mesmos, a correr…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 58.

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