Ao vento (Florbela Espanca)

 

Ao vento
(Florbela Espanca)

O vento passa a rir, torna a passar,
em gargalhadas ásperas de demente;
e esta minh’alma trágica e doente
não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
vento que ris de mim, sempre a troçar,
vento que ris do mundo e do amar,
a tua voz tortura toda a gente!…

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
e não rias assim!… Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir pla vida fora!!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 57.

 

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