Tortura (Florbela Espanca)

Tortura
(Florbela Espanca)

Tirar dentro do peito a Emoção,
a lúcida Verdade, o Sentimento!
— E ser, depois de vir do coração,
um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso de alto pensamento,
e puro como um ritmo de de oração!
— E ser, depois de vir do coração,
o pó, o nada, o sonho dum momento…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
rimas perdidas, vendavais dispersos,
com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
o verso altivo e forte, estranho e duro,
que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 37.

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