Pior Velhice (Florbela Espanca)

Pior Velhice
(Florbela Espanca)

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
de alvas rosas a fronte da mulher,
na minha fronte mística de louca
martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova… A mocidade
estará só, então, na nossa idade,
ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
aquela onde nem sequer existe
lembrança de ter sido nova… outrora…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 51.

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