Noite de Saudade (Florbela Espanca)

Noite de Saudade
(Florbela Espanca)

A Noite vem poisando devagar
sobre a Terra, que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
a quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
a sua dor que é cheia de tortura…
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem…
Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!…
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 47.

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