Lágrimas ocultas (Florbela Espanca)

Lágrimas ocultas
(Florbela Espanca)

Se me ponho a cismar em outras eras
em que ri e cantei, em que era qu’rida,
parece-me que foi noutras esferas,
parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
que dantes tinha o rir das primaveras,
esbate as linhas graves e severas
e cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
o meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 38.

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