Desejos vãos (Florbela Espanca)

Desejos vãos
(Florbela Espanca)

Eu queria ser o Mar de altivo porte
que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
a pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
o bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 50.

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