Castelã da Tristeza (Florbela Espanca)

Castelã da Tristeza
(Florbela Espanca)

Altiva e couraçada de desdém,
vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor…
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?… A quem?!…
— E o meu olhar é interrogador —
perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
Chora o silêncio… nada… ninguém vem…

Castelã da Tristeza, por que choras
lendo, toda de branco, um livro de horas,
à sombra rendilhada dos vitrais?…

À noite, debruçada, p’las ameias,
Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
Que sonho afagam tuas mãos reais?…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 36.

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