A minha dor (Florbela Espanca)

 

A minha dor
(Florbela Espanca)

A minha Dor é um convento ideal
cheio de claustros, sombras, arcarias,
aonde a pedra em convulsões sombrias
tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
dum roxo macerado de martírios,
tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
noites e dias rezo e grito e choro,
e ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

Da obra original Livro de Mágoas/ Florbela Espanca (1919).
Extraído de Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 40.

 

 

 

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