A maior tortura (Florbela Espanca)

A maior tortura
(Florbela Espanca)

A um grande poeta de Portugal

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia…
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
a minha atroz, imensa nostalgia! …
A minha pobre Mãe tão branca e fria
deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
a urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
não ser poeta assim como tu és,
para gritar num verso a minha Dor! …

Da obra original “Livro de Mágoas”, reunido em Melhores Poemas/ Florbela Espanca:
seleção de Zina C. Bellodi, Global Editora e Distrib. Ltda., São Paulo, SP,
1ª edição, 2005, pág. 45.

Você pode gostar...

Send this to a friend