Amor de fantasia (J. G. de Araújo Jorge)

Amor de fantasia
(J. G. de Araújo Jorge)

O pior, para mim, é ter que encontrar-te todo dia,
falar contigo como a uma estranha,
ver-te linda e distraída,
estender-te a mão, em cumprimentos banais,
quando tu és afinal (que importa se não sabes?)
— a minha Vida…

Em vão me confesso num olhar de ternura
que procura teus olhos, além,
onde ninguém pode chegar,
e o coração se alvoroça, e paro, e me contenho,
numa angústia apaixonada…
E linda, e distraída,
tu nem percebes nada…

Iludo o meu desejo, (esse Fauno em travesti
de velho Pierrot)
a imaginar mil coisas de poeta e de louco,
(Ah! se eu fosse o teu Senhor!)
— e te atiro palavras, como serpentinas
displicentes,
para distrair os outros, os intrusos, — presentes
a este singular carnaval
do meu amor…

Ah! se soubesses o quanto és minha, nesses instantes proibidos
da imaginação,
mas profundamente verdadeiros,
— tu, linda e distraída,
boneca e criança,
talvez acendesses, na distância dos teus olhos
para os meus olhos marinheiros
e para a minha vida,
alguma esperança.

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP) Brasil, pág. 51/52.

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