Soneto do desmantelo azul (Carlos Pena Filho)

Soneto do desmantelo azul
(Carlos Pena Filho)

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Em Os melhores poemas de Carlos Pena Filho/
seleção de Edilberto Coutinho, 4ª edição,
Global Editora e Distrib. Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2000, pág. 73.

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