A poesia se esfrega nos seres e nas cousas (Adalgisa Nery)

A poesia se esfrega nos seres e nas cousas
(Adalgisa Nery)

Nunca sentiste uma fôrça melodiosa
cercando tudo que teus olhos vêem,
um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem?
Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
deparando com um campo devoluto
semelhante a uma virgem esquecida?
Num circo, nunca se apoderou de ti, um amargor sutil
vendo animais amestrados
e logo depois te mostrarem
sêres humanos imitando um reptil?
Nunca reparaste na beleza de uma estrada
cortando as carnes do solo
para unir carinhosamente
todos os homens, de um a outro pólo?
Nunca te empolgaste diante de um avião,
olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
ou de qualquer outra invenção?
Nunca sentiste esta fôrça que te envolve desde o brilho do dia
ao mistério da noite,
na extensão da tua dor
e na delícia da tua alegria?
Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta montanha
para que vejas com tôda a amplitude
a grandeza infindável da poesia que não percebes
e que é tamanha!

Da obra original “A Mulher Ausente” (1940)/ Adalgisa Nery.
Extraído de Mundos Oscilantes – poesia reunida/ Adalgisa Nery,
Livraria José Olympio Editôra S.A., Rio de Janeiro (RJ) Brasil,
1962, pág. 79.

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