Soneto XXVII (Guilherme de Almeida)

Soneto XXVII
(Guilherme de Almeida)

Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado
passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo, esquecido de te olhar — coitado!
Vais — coitada! — esquecida de que existo:
como se nunca tu me houvesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado!

Se, às vezes, sem querer, nos entrevemos;
se, quando passo, teu olhar me alcança,
se os meus olhos te alcançam, quando vais,

— ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos. —
volta-nos sempre a pálida lembrança
daqueles tempos que não voltam mais!

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 47.

Você pode gostar...

Send this to a friend