Soneto II (Guilherme de Almeida)

Soneto II
(Guilherme de Almeida)

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura e clara e vagarosa e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem pela janela
trazer luz e calor a esta alma escura e fria.

E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela.
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro
e claro e vagaroso e belo, na luz de ouro
do poente me dizia adeus como um sol triste.

E falou-me de longe: — “eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”

Da obra original Os últimos românticos.
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 63.

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