Horas rubras (Florbela Espanca)

Horas rubras
(Florbela Espanca)

Horas profundas, lentas e caladas,
feitas de beijos sensuais e ardentes,
de noites de volúpia, noites quentes
onde há risos de virgens desmaiadas…

Oiço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes,
e do luar os beijos languescentes
são pedaços de prata p’las estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos.
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Da obra original Livro de Soror Saudade (1923), reunido em Sonetos/
Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro, Portugal,
4ª edição, 1992, pág. 97.

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