A um Homem (Adalgisa Nery)

A um Homem
(Adalgisa Nery)

Quando numa rocha porosa
cansado te encostares
e dela vires surgir a umidade e depois a gôta,
pensa, amado meu, com carinho,
que aí está a minha bôca.
Se teus olhos ficarem nas praias
e vires o mar ensalivando a areia,
com alegria pensa, amado meu,
num corpo feliz
porque é só teu.
Se descansares sob uma árvore frondosa
e além da sombra ela te envolver de ar resinoso,
lembra-te com entorpecência, amado meu,
da delícia do meu ventre amoroso.
Quando olhares o céu
e vires a andorinha tonta na amplidão,
pensa, amado meu, que assim sou eu
perdida na infindável solidão.
À noite quando as trevas chegarem
e vires do firmamento
uma estrêla cair e se afundar,
é sinal, amado meu,
que teu amor vai me abandonar.
Na morte, quando perderes o último sentido
e tua própria voz
em forma de pensamento
te subir ao ouvido,
deixa escorrer a derradeira lágrima pelo teu rosto
nascida do extremo alento do coração
e pensa então, amado meu,
que ainda é um suave carinho da minha mão.

Da obra original “A Mulher Ausente” em Mundos Oscilantes – poesia reunida/
Adalgisa Nery, Livraria José Olympio Editôra S.A., Rio de Janeiro (RJ) Brasil,
1962, pág. 57.

 

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