Em vão (Florbela Espanca)

Em vão
(Florbela Espanca)

Passo triste na vida e triste sou,
um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
que não diz onde vai nem donde vem.

Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
a flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
a silenciosa cela procurou!

E eu quero bem a tudo, a toda a gente…
Ando a amar assim, perdidamente,
a acalentar o mundo nos meus braços!

E tem passado, em vão, a mocidade
sem que no meu caminho uma saudade
abra em flores a sombra dos meus passos!

Publicado originalmente no Livro Reliquiae (1931), retirado de
Sonetos/ Florbela Espanca, Livraria Estante Editora, Aveiro (PT),
4ª edição, 1992, pág. 172.

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