Teus Cabelos (J. G. de Araújo Jorge)

Teus Cabelos
(J. G. de Araújo Jorge)

Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos…

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los…

Têm estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e… já não me reconheço…

Tua cabeça em minha mão acende-se como uma tocha loura,
e olho em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro…

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos…

Em Os mais belos poemas que o amor inspirou IV/ J. G. de Araújo Jorge,
4ª edição, Editora Rideel Ltda., São Paulo (SP), pág. 144.

Você pode gostar...

Send this to a friend