Náufrago (Alphonsus de Guimaraens)

Náufrago
(Alphonsus de Guimaraens)

E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo.
Perde-se o meu olhar pelas trevas sem fim.
Medonha é a escuridão do céu, de extremo a extremo…
De que noite sem luar, mísero e triste, vim?
 
Amedronta-me a terra, e se a contemplo, tremo.
Que mistério fatal corveja sobre mim?
E ao sentir-me no horror do caos, como um blasfemo,
não sei por que padeço, e choro, e anseio assim.
 
A saudade tirita aos meus pés: vai deixando
atrás de si a mágoa e o sonho… E eu, miserando,
caminho para a morte alucinado e só.
 
O naufrágio, meu Deus! Sou um navio sem mastros.
Como custa a minha alma a transformar-se em astros,
como este corpo custa a desfazer-se em pó!

Da obra original “Kiriale”, extraído de Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens/ seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho,  4ª edição, Global Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo (SP) Brasil, 2001, pág. 21.

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